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O cidadão se angustia: por que é que a qualidade da televisão descambou desse jeito? Eu respondo: porque o dono não toma conta. E quem é o dono? O dono é ele mesmo, o cidadão. Ele só não sabe que é o dono. A televisão comercial, que não quer saber de prestar contas a ninguém, faz questão de nunca lembrá-lo disso: de que ele, cidadão, é o dono do canal.
Como o dono não toma conta, a gente vive uma situação bizarra. O Brasil acha reprovável a televisão que o Brasil adora ver. Os programas que têm os melhores índices de audiência são também os que mais geram protestos. Com uma face, a platéia bate palmas para as atrações mais apelativas e, com a outra face, protesta. A maioria assiste aos reality shows e ao sensacionalismo policial. Ao mesmo tempo, a maioria concorda que esse tipo de programa não é exatamente o que mais contribui para a boa formação das crianças. O que há de errado? O público adora ver justo aquilo que acha condenável? Ou acha condenável o que mais gosta de ver?
O quadro é bizarro, mas não é inexplicável. Ao contrário, a explicação é elementar. Não há nada de errado em gostar de arte erótica ou de filmes violentos. Errado é transformar predileções íntimas em regra de conduta pública. O fato de alguém se deliciar com as obras do Marquês de Sade, o que é uma forma legítima de deliciar-se, desde que na esfera íntima, não significa que esse mesmo alguém esteja autorizando encenações do Marquês de Sade às seis horas da tarde em uma rede de canal aberto. O fato de alguém gostar de filmes violentos não significa que esse mesmo alguém pretenda impor seus filmes prediletos ao público infantil. Dito assim, parece óbvio, não? Pois a nossa televisão comercial jogou esse óbvio no lixo.
As emissoras de TV dizem que estão autorizadas a exibir o que exibem porque o público aprova. Aprova como? Segundo elas, pelos índices do ibope. O argumento é uma falácia ululante. Os índices do ibope, invocados como credenciais absolutas, transformam as pequenas taras da esfera íntima - aquelas obsessões secretas que todos temos, mas que não confessamos ao vizinho de jeito nenhum - em regras de conduta pública. Aí está o engano - e o engodo. As emissoras de fato obedecem ao consumidor (oferecem o que ele aceita ver, digamos assim), mas a condição de consumidor é apenas uma das duas faces de cada um de nós. Quanto à outra face, a de cidadão, elas ignoram. Elas escondem. Elas chamam o telespectador a se manifestar como cliente: você quer consumir este programinha de nudismo apimentado? Nunca, porém, consultam o cidadão: você acha que esse programa deveria ser vendido dessa forma, nesse horário?
A televisão comercial deve corresponder aos desejos íntimos dos clientes-telespectadores, por certo, mas deveria fazê-lo dentro dos parâmetros que pareçam razoáveis ao cidadão. Deveria, mas não faz.
Ela dialoga com os desejos da clientela (porque vive de explorá-los) mas não dialoga com a razão do público. Não quer repartir o poder. Logo, se não reparte, usurpa o poder - porque, no fim da linha, o poder primeiro está com o cidadão. Embora nunca seja lembrado disso, ele, cidadão, é o dono das freqüências pelas quais são transmitidos os sinais de televisão aberta. É em nome dele que o poder público outorga as concessões. Em nome dele e, infelizmente, em surdina. As concessões são resolvidas entre quatro paredes - como se fossem, elas mesmas, uma esquisitice da intimidade. Aí é que está o erro.
Eu proponho que, a partir de agora, esse debate aconteça em público. Mais exatamente, dentro da própria TV. Cada canal de televisão deveria estar obrigado a apresentar programas periódicos (anuais, no mínimo) que fariam a avaliação crítica do cumprimento ou não de suas obrigações como concessionário. Por esses programas, organizados e mediados pelos setores competentes do poder público, o cidadão seria informado sobre os deveres da concessionária (horários para programas educativos, respeito aos valores éticos e assim por diante) e sobre os direitos do público (o direito à informação, por exemplo). Ao final de cada programa, o telespectador seria chamado a opinar. Poderíamos ter consultas do tipo: você é a favor da renovação dessa concessão? Tudo isso aconteceria com o apoio dos recursos de interatividade que hoje estão aí, como votações pelo telefone e pela internet. Seria a interatividade a serviço da democracia e não apenas do consumo. As consultas ao público deveriam ter um caráter, como o nome já diz, apenas consultivo. Já seria ótimo: a qualidade da programação mudaria quase que imediatamente, pois as emissoras se veriam obrigadas a responder pelo que fazem.
Seria uma bela reviravolta num país em que a televisão não gosta de prestar contas a ninguém que não seja o dinheiro e o ibope. Em matéria de poder, a televisão monologa. Monologando, sente-se autorizada a baixar o nível sem temer nenhum tipo de conseqüência democrática. Isso precisa mudar - não para salvar a moralidade e os bons costumes (esses argumentos de fundo moral são quase sempre risíveis), mas para salvar a credibilidade da televisão como veículo necessário para a integração nacional. Acabar com a justa insatisfação da cidadania em relação à TV não requer censura nem moralismo. Requer apenas que se dê voz ao cidadão. Requer que ele fale, não mais como freguês de futilidades, mas como fonte do poder e como dono que é.
A idéia é simples e possível. Será que alguém é contra?

(Eugênio Bucci é jornalista e professor universitário. Transcrito do Jornal do Brasil, com a autorização do autor.)
Fonte: Jornal do Brasil

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