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Violência de Novela é Mais Branda que a Real
Autor(a) : Leila Reis
O Ministério da Justiça, que acusa "Kubanacan" de excesso de violência, deveria atentar para os programas policiais.
O departamento do Ministério da Justiça que cuida da classificação da programação da TV por faixa de horário está incomodado com o excesso de violência na novela Kubanacan. Acha que 7 horas da noite é muito cedo para o telespectador ver cenas de brigas e sangue cenográfico e, por isso notificou a Globo e pediu uma "readaptação" da novela.
A emissora, claro, vai recorrer, mas essa atitude joga luzes sobre uma questão interessante: quer dizer que crianças e jovens precisam ser protegidos da violência de mentira da novela, mas estão liberados para assistir às caçadas policiais, tiroteios e o sangue de verdade que aparece diariamente nos programas policiais antes das 7?
O ministro Márcio Thomaz Bastos admitiu em recente entrevista ao Estado que sua Pasta não tem critérios para decidir o que era ruim ou bom na TV e que prepara uma ampla consulta à sociedade para estabelecer padrões de avaliação do conteúdo da programação. Então, é bem possível que a providência do ministério em relação a Kubanacan tenha sido provocada por alguma manifestação da sociedade civil.
A novela de Carlos Lombardi, que comemora um ibope importante na casa dos 40 pontos de média (na Grande São Paulo), entrou no ranking da baixaria do site www.eticanatv.org.br, da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, por outro motivo. A comissão que promove a campanha Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania recebeu 32 reclamações de cidadãos brasileiros sobre cenas de sexo "inadequadas para o horário".
É correto e justo ouvir os apelos do consumidor, mas quando se abre um canal para o público é natural que surjam manifestações que refletem preocupações até mais realistas do que o rei. O cidadão tem o direito de dizer o que quiser a respeito do que o incomoda na TV. A função do poder público é atendê-lo, claro, mas antes de tudo deve olhar a programação como um todo, não só o pedacinho que desagradou alguém.
No entanto, parece ser mais fácil (ou conveniente) pinçar o que foi levantado do que passar a programação a limpo. Ao se ater ao detalhe, o ministério dá uma satisfação ao público, sem se comprometer com a qualidade da TV que classifica.
Aqui entre nós, achar que uma novela vai estimular a infância e a adolescência a sair arrebentando tudo e socando o próximo é desmerecer a inteligência do telespectador. As confusões em que o protagonista de Kubanacan se mete estão mais para desenho animado do que para barbárie. Da mesma maneira, as sandices dos personagens Heloísa e Marcos, de Mulheres Apaixonadas, estão longe de tornar homicidas esposas e maridos ciumentos.
Se tivéssemos uma programação impecável, até se poderia chegar ao requinte de fiscalizar a ficção da TV em suas minúcias para detectar desvios. Como é consenso que a qualidade da programação não é defensável por quem tem algum juízo, seria melhor olhar com mais rigor para os programas que realmente exploram a violência para extrair dela o seu sucesso no ibope, como Cidade Alerta, Brasil Urgente, Repórter Cidadão, Linha Direta, etc.
E deixar as novelas sossegadas, porque o público brasileiro é grandinho o suficiente para diferenciar a ficção da realidade.
Fonte: O Estado de S.Paulo, 20 Jul 03
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